Altamente Cronicável

Por Luciana Pinsky

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A primeira morte

por Luciana Pinsky

Estávamos no café da manhã, olhos ainda semiabertos, pão e manteiga. Barulho. Um confronto. O pássaro não percebeu o vidro, caiu, agonizante.

Mas como, se poucos segundos antes ele estava animadíssimo cantando na amoreira?

– Ele vai ficar bom? – Perguntou o menino, já temendo a resposta.

– Não, meu querido.

– Vamos chamar um médico de passarinhos – foi sua tentativa de nos mostrar errados, de nos fazer ver outra possibilidade, de nos dizer que nós tínhamos de salvá-lo. Afinal, se o pássaro não enxergou o vidro a culpa é nossa e dos nossos tantos obstáculos invisíveis.

– O veterinário não consegue salvá-lo, meu amor. Ele se machucou muito.

O sanhaço foi transportado para a terra, sofreu um tanto antes de estirar de vez. O menino foi chorar no sofá. Largou dominó, não quis mais tapioca. O pássaro não comia, não brincava, por que ele o faria? 

– E agora? – perguntou, com a cabeça ainda debaixo da almofada.

– Agora vamos enterrá-lo.

Ele se levantou, decidido. Nunca participara de um ritual de despedida. Nunca a morte estivera tão perto. Sim, sabia de sua existência, de sua inevitabilidade até. Mais do que isso: já ouviu sobre familiares que tivera, que chegara a conhecer, mas que não estavam mais, a não ser na mesa da sala, em fotos e na memória. Memória dos pais, porque para ele eram abstrações de parentes. Também sabe que todos estamos presos em casa para fugir de uma doença que vem matando no mundo inteiro. Mas até agora ninguém de seu convívio.

O sanhaço, ao contrário, era real. Estava lá um minuto antes, tão vivo quanto ele. Voando, cantando, dividindo as amoras pretas.

Cantinho do quintal. Buraco na terra. Busca o pássaro. Terra por cima.

Agora a música. Tentamos Bach, tranquilo e bonito. E desde quando a morte é bonita e tranquila?

– Não. Quero música que conheço e gosto.

Não creio que tenha havido outro enterro no planeta ao som de Dancin’ Days.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho – http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/ sob foto de Régis Filho

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