Altamente Cronicável

Por Luciana Pinsky

As-coisas-e-seus-tempos
As coisas e seus tempos

por Luciana Pinsky

Quebrou a prateleira da geladeira. A maçaneta da porta da frente caiu. Vazamento no banheiro. Copo estilhaçado. Depois do terceiro, parei de contar. Saleiro, troco todo mês. O ferro de passar já era, assim como o aspirador de pó. A máquina de lavar, praticamente nova, não seca mais. Minhas roupas rasgam, a sola do sapato solta, a alça da mala descostura. O celular e o elevador travam, o sistema operacional do computador não atualiza mais. A bateria do livro eletrônico foi embora antes do fim da história e a do carro não durou um ano.

Enquanto isso, a bicicleta acaba de completar 25 anos. Nem pneu fura. Em perfeitas condições está também o livro de capa roxa que comprei e devorei no primeiro ano da faculdade. Ele ainda me emociona. E aqueles óculos escuros que ganhei outro dia prometem.

Equilibrando-me na ciclovia carcomida da cidade penso que tinha de ser assim mesmo. Afinal, as coisas são mais ou menos como os amores e as amizades.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho – http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/

Este post tem 9 comentários

  1. Nossa, analogia perfeita! Texto ágil e claro, assertivo e suave. Parabéns!

    1. Obrigada, querida Leny.

  2. Trinta anos de amizade. ❤

    1. Por mais trinta!!!

  3. Lindo texto. Extraordinária bike!

    1. Obrigada, Silvia! Bicicletas são sempre extraordinárias. Inclusive as ordinárias!

  4. muito nostálgico este texto, Lu, talvez de coisas atualmente descartáveis… a bike continua respeitada ; ela resolve vários problemas de trânsito… pra quem se acostumou desde criança….

    1. Uh, ainda não me conformei com isso…

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