Altamente Cronicável

Por Luciana Pinsky

porta
Feche a porta!

Brrr…. De novo?

A porta. Feche a porta, por favor. Mas é inútil, não me ouve, nem adianta reclamar. A porta que eu cuidadosamente encostei está de novo aberta trazendo de fora ar gelado que casaco nenhum barra. Não entendo isso: será que não a vê encostada? Custa muito deixá-la tal como encontrou?

Aparentemente sim. Por que ninguém passa impunemente, sem deixar atrás de si uma brisa que me ameaça? O mesmo vento que afasta poluição pode ser tufão com potencial de perda total. Sou pura pele e, leve, não posso com vento.


Nunca pude. Sempre me ressenti de não saber cair. Equilibrava-me com determinação, mas ventou, arrisquei-me e caí feio, difícil, hospital, ortopedista, cama. Músculos atrofiados, a pouca força me abandonara; sem equilíbrio eu cambaleava. Bêbada, experimentei tanto até que, cansada, voltei à prudência, fechei portas a me gelar, encontrei o meu quentinho. 


E cá estou eu tentando manter o ambiente agradável, não concordo nem compactuo com quem insiste em abrir portas e deixá-las escancaradas.

Chega deste entra e sai inconsequente. Feche a porta. Fechem todas elas. Preciso dormir aquecida.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho – http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/

Este post tem 8 comentários

  1. Você mistura crônica e poesia de forma muito especial…

    1. Obrigada, Eliana. Você é uma leitura muito especial!

  2. LUCIANA!!! que delicia! Também não posso com esses ventinhos cortantes que nos açodam. Também não posso com, inclusive, portas que batem, e com pessoas que batem portas. Um dia entenderei o que me causam. talvez a sensação de um tapa na cara. As portas deveriam sempre ser suavemente cerradas, como suaves foram suas palavras… Beijos meus, Marli

    1. Pois é, Marli, todos nós ganharíamos com suavidade! beijo

  3. O melhor da porta fechada é escutar um “toc toc toc” inesperado e sentir a força do vento na cara ao aventurar-se em uma espiada.

    1. E aí, Rô, você já remete à crônica anterior, “Invasão”!

  4. Texto lindo, cheio de poesia e de clareza. Show!

    1. Leny, muito obrigada. É sempre uma delícia contar com sua leitura.

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